Talvez por isso eles costumem parecer mais bacanas aos nossos olhos do que aos dos outros.
Pensando bem, se todos temos defeitos, quantos casais não deixariam de se formar sem a ajuda de uma cegueirazinha mútua para pequenos problemas?
A cegueira social amorosa pode até explicar por que, quando as coisas vão mal, quem não está envolvido consegue enxergar razões suficientes para terminar um relacionamento mais facilmente do que as partes interessadas.
No entanto, mesmo quando a cegueira passa e temos consciência de querermos alguém que nos maltrata, despreza, ignora e às vezes até rejeita, a primeira reação do cérebro pode ser... insistir mais ainda em reconquistar o amor da pessoa em questão.
Os amigos, cujo cérebro não sofreu as influências do(a) Fulano(a), repetem que ficamos melhor sem ele(a). Sabemos disso, mas... Por que pode ser tão difícil dizer "basta" a um relacionamento ruim? Masoquismo? Culpa? Carma?
De certa forma, vício. O amor de uma pessoa é talvez o melhor dos vícios: algo do qual queremos mais, e sempre, e pelo qual fazemos tudo o que for preciso.
Ele estimula o sistema de recompensa do cérebro, que nos traz prazer, bem-estar e felicidade -e nos faz querer mais de tudo isso com aquela pessoa. A expectativa do prazer de estar com ela é motivação suficiente para a procurarmos.
O problema é que, curiosamente, quando o que causou prazer no passado deixa de funcionar, ou só funciona às vezes, o sistema de recompensa responde durante algum tempo a essas lembranças com uma ativação ainda maior, que motiva o cérebro a insistir quase obsessivamente no assunto até recobrar o bem-estar de antes.
É exatamente o que nos faz apertar dezenas de vezes seguidas, e cada vez mais desesperadamente, o botão do controle remoto cuja pilha acabou. Você vê que não funciona mais -mas e se, graças à sorte ou ao seu charme, voltar a funcionar?
Se voltar, ótimo - ou não, porque, se a calmaria for apenas temporária, logo começa tudo de novo. E se não voltar, a receita da reabilitação é uma só: tempo, abstinência e outros prazeres.Suzana Herculano-Houzel
(Neurocientista, professora da UFRJ e autora dos livros "O Cérebro Nosso de Cada Dia" e "Sexo, Drogas, Rock'n'Roll & Chocolate" - ed. Vieira & Lent. Artigo publicado na “Folha de SP, 10/5).
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